Os Grandes Portos: Vintage ou Colheita?


Essa questão mais uma vez ficou sem resposta após bela degustação de Portos na ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers). Na apresentação foi mostrado os dois lados da moeda, ou seja, o caminho da preservação da cor, o pouco contato do oxigênio na sua elaboração e o envelhecimento em garrafa, em meio redutivo. Do outro lado, a intensa micro-oxigenação  dos vários anos em madeira, culminando em cores e aromas fascinantes.

O painel completo era composto somente de Portos de categoria especial, de produção extremamente reduzida em relação ao volume total anual. O LBV (Late Bottled Vintage) 2007 da Burmester abriu os trabalhos com cores e sabores jovens, vislumbrando muita vida pela frente. Em seguida, começou a série de Tawnies com um belo 10 anos da casa Ramos Pintos da distinta Quinta da Ervamoira, muito bem elaborado e equilibrado. Logo após, o Porto 20 anos da jovem casa Churchill com aromas um pouco tímidos de início que foram se mostrando numa bela evolução na taça. O ponto culminante encerrando a série, foi o excepcional Porto Krohn Colheita 1983. A safra por si só já é muito boa, mas o longo período em barricas (27 anos) lapidou de forma brilhante este não tão admirado estilo de Porto. Para encerrar a festa, um Porto Vintage de Quinta da mais antiga casa inglesa de Portos, a tradicional Warre´s do grupo Symington,  fundada em 1670, bem antes da famosa demarcação da região em 1756. Veja os exemplares na foto abaixo:

Os dois estilos perfilados

O estilo Tawny ou aloirado é bem aceito e conhecido dos apreciadores de Porto. Entretanto, o Porto Colheita, ícone maior desta categoria é pouco conhecido e compreendido. Apesar deste assunto já ter sido explanado em outros artigos deste mesmo blog, vamos enfatizar os pontos principais. Como o próprio nome diz, este Porto nasce de uma única safra expressa no rótulo. Ele deve permanecer em madeira, geralmente pipas de 550 litros, por pelo menos sete anos, conforme legislação vigente. Evidentemente, as grandes casas especializadas nesta categoria obedecem a lei com folga, deixando o vinho por longos anos em madeira, antes de engarrafa-lo. E a grande transformação ocorre neste longo período, onde a lenta e progressiva micro-oxigenação promove mudanças de cores, aromas e texturas, culminando num grande equilíbrio e complexidade. Sua cor torna-se esmaecida, seus aromas etéreos e uma textura sedosa. O pulo do gato neste estilo é a destacada acidez, componente essencial para transmitir frescor, e manter o equilíbrio perfeito frente ao elevado teor alcoólico e de açúcar deste tipo de vinho fortificado. Portanto, além da declaração da safra no rótulo, é obrigatória a declaração da data de engarrafamento do Colheita, o qual pode ter várias partidas engarrafadas ao longo de sua vida, ganhando cada vez mais complexidade com os anos em madeira. Após o engarrafamento, esta categoria de vinho cessa seu período de evolução, podendo ser consumido imediatamente ou guardado para um momento propício. No exemplar abaixo, os vinte e sete anos em madeira fizeram muito bem ao belo Krohn Colheita 1983, engarrafada somente em 2010.

Cor topázio, típica dos grandes Colheitas

Já no outro lado da moeda, o grande rival Vintage da casa Warre´s, Quinta da Cavadinha 1996. Os Vintages bem elaborados, de grandes safras e de grandes casas, parecem ser quase imortais. Reparem a pouca evolução de cor deste exemplar, conforme foto abaixo:

Cavadinha 1996: Vintage de Quinta

Os aromas também não estavam totalmente evoluídos. Com muita fruta escura macerada em álcool, lembrando belos licores, os aromas de fumo, especiarias e chocolate vinham logo em seguida. Em boca, taninos ainda muito presentes, equilibrados com os demais componentes de acidez, açúcar e álcool. Persistente e marcante, vislumbra pelo menos algumas décadas pela frente. Enfrentou muito bem seu companheiro de mesa, o clássico Stilton, queijo azul de origem inglesa.

Lembrete: Vinho Sem  Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

 

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2 Respostas to “Os Grandes Portos: Vintage ou Colheita?”

  1. Vagner Says:

    Eu tive o prazer de vivenciar essa degustação… Sensacional!!! Não encontro outro nome para descrever! Abraço mestre.

    Gostar

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