Archive for Agosto, 2011

Château Gruaud Larose

29 de Agosto de 2011

Cada uma das comunas do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux, elege ao longo do tempo, seus mais destacatos Grands Crus Classés. Em Saint-Julien,  os Châteaux Ducru-Beaucaillou, Léoville-Las-Cases e Gruaud Larose, formam o trio de ferro dos melhores deuxièmes desta comuna. A consistência destes vinhos mostra de forma enfática a regularidade de Saint-Julien apesar de na média, não serem tão brilhantes como Pauillac.

Gran Vin e seu Segundo Vinho

São 82 hectares de vinhas plantadas em terreno pedregoso (graves) com densidade de dez mil pés por hectare. A idade média é de 45 anos com evidente predomínio de Cabernet Sauvignon (57%), seguido por Merlot (30%), Cabernet Franc (8%), Petit Verdot (3%) e Malbec (2%). O vinho amadurece por cerca de dezoito  meses em barricas de carvalho, sendo 5O% novas. O segundo vinho, Sarget de Gruaud Larose, é elaborado desde 1979. A composição do vinho e o tempo de barrica apresentam pequenas variações de safra para safra.

Comuna de Saint-Julien vizinha à Pauillac

Na degustação da ABS-SP em 24 de agosto de 2011, ficaram reforçadas minhas impressões sobre Gruaud Larose. Embora seja um Bordeaux elegante, típico e bem equilibrado, exceto em safras muito especiais como 61, 82 e 90, por exemplo, onde é grandioso, eu o coloco numa categoria abaixo dos dois grandes vinhos de Saint-Julien, já citados no trio de ferro acima.

As safras degustadas na ABS de 2006, 2005 e 2004, estão num patamar abaixo da grande dupla de Saint-Julien (Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases). Mesmo a safra de 2005, claramente superior às demais, não apresenta a profundidade dos grandes de Bordeaux. Que fique bem claro; é um vinho muito bem feito, equilibrado e elegante, mas num rigor bordalês, estamos falando de vinhos quase perfeitos. E este, não é o caso.

As impressões de Robert Parker ficam refletidas em suas notas, abaixo de 90 pontos para as três safras. Ele pode ser questionado  em quaisquer outros vinhos e regiões, mas para Bordeaux, não há ninguém tão imparcial e justo como Parker.  

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Panorama Vitivinícola Mundial: Parte II

25 de Agosto de 2011

Dando prosseguimento aos mais recentes dados da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) para o ano de 2010, passaremos a seguir, aos gráficos de consumo, exportação e importação mundial de vinhos:

Consumo Mundial

França e Itália sistematicamente, vêm diminuindo seu consumo interno de vinhos. Já Estados Unidos, Alemanha e China, em franca expansão. Os números são absolutos e não per capita. Neste quesito, França, Portugal, Itália e Suiça, estão na liderança. França com quase 50 litros e os demais ao redor de 40 litros per capita.

      Consumo em número absoluto dos principais países

O consumo mundial previsto para 2010 é de 238 milhões de hectolitros, gerando um déficit com cerca de 26 milhões de hectolitros.

Exportação Mundial

A Itália continua sendo o grande país exportador, seguido de perto pela Espanha. A França vem perdendo terreno, com sinais de mais queda ainda. Por outro lado, Austrália e Chile disputam o mercado do chamado Novo Mundo.

Os doze maiores países exportadores do mundo

As exportações mundiais em 2010 somaram mais de 90 milhões de hectolitros, sendo que os três grandes europeus (Itália, França e Espanha) contribuiram com mais de 50 milhões de hectolitros.

Importação Mundial

Os grandes países importadores continuam firme em suas posições. Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, respectivamente. Holanda, Suiça e Bélgica têm tradição, mas em patamares menores.

Os catorze maiores países importadores do mundo

Apesar da expectativa de países como Rússia e China serem potenciais importadores, os níveis atuais ainda estão muito abaixo do trio de ferro tradicional.

Novamente enfatizando, os dados destes dois artigos sobre a vitivinicultura mundial atual não são oficiais. Entretanto, há bastante consistência nos dados referentes a 2010, com eventualmente alguns ajustes e correções. Maiores informações, consultar o site: www.oiv.org (Organização Internacional da Vinha e do Vinho).

Panorama Vitivinícola Mundial: Parte I

22 de Agosto de 2011

Segundo assembléia da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) realizada em junho de 2011 na cidade do Porto (Foz do rio Douro), os principais países vinhateiros europeus continuam dando as cartas nos números globais, embora com tendências novamente confirmadas de desaceleração lenta e gradual, buscando uma estabilização. Os números ainda não são oficiais, já que os mais recentes publicados no próprio site da entidade são de 2007. Para consultar, basta clicar em www.oiv.org

Superfície de Vinhedos

Com exceção da Europa, os demais continentes apresentam acréscimos moderados mas significativos, somando pouco mais de sete milhões e meio de hectares em todo o mundo.

 Os doze principais países em milhares de hectares

As barras em azul apontam uma tendência de decréscimo, enquanto em amarelo, uma tendência de expansão. A Espanha diminuiu bem sua área de vinhas, abaixo de um milhão e cem mil hectares. Notem que o destaque para a Turquía é devido à grande produção de uva passa. Já a China, produz grande quantidade de uva para consumo in natura e também na produção de vinhos. 

Produção de Uvas   

A Itália continua na liderança baseada na produção de vinhos e uvas in natura. Os Estados Unidos, além da producão de vinhos, têm grande destaque em uvas passas. Já o Chile, tem tradição na produção de uvas in natura (frutas de um modo geral) e também na produção de vinhos.

   Principais países em produção de uvas

Os números são expressos em milhões de quintais. Quintal é uma unidade de peso equivalente a 100 kg (quilogramas).

Produção de Vinhos

Os cinco principais produtores de vinhos permanecem inalterados em suas posições, apenas com França e Itália alternando a liderança em determinados anos. A expansão da China e Argentina é notável.

Os doze maiores produtores de vinho

A produção mundial de vinhos em 2010 aponta para um número próximo de 264 milhões de hectolitros, sendo que França e Itália respondem por cerca de um terço dos vinhos produzidos no planeta.

Próximo post, falaremos sobre consumo, importação e exportação mundial de vinhos, com os números mais recentes.

Vinhos em Destaque: Carracedo e Viticcio Chianti Classico

18 de Agosto de 2011

No evento Grand Tasting da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br), dois vinhos me chamaram a atenção pelas pecualiaridades de seus respectivos terroirs. O primeiro é o exemplar abaixo, da pouco conhecida denominação espanhola Bierzo (ver artigo neste blog sobre a uva Mencía), de grande personalidade e concentração.

Grande expressão da casta Mencía

O enólogo José Luís Santín Vazquéz da Bodega del Abad, profundo conhecedor do vinhedo berciano, é chamado por ¨El Maestro¨, sendo um dos responsáveis pelo ícone da bodega, Carracedo. Partindo de vinhas velhas, com frutos de alta concentração, seus rendimentos são muito baixos. O vinho reflete a alta mineralidade do terreno com presença de pizarras (espécie de xisto). A passagem por barricas enriquece o conjunto, fornecendo um acabamento polido frente a uma sólida estrutura tânica. Persistente e muito bem equilibrado. Guardem este nome, estará em breve no portfólio da importadora.

Bela expressão de Greve in Chianti

O vinho acima retrata com fidelidade as características de terroir da sub-região de Greve in Chianti, zona importante da denominação de origem Chianti Classico. Elaborado pela Fattoria Viticcio, este exemplar conta com 95% Sangiovese e 5% Merlot. O vinho amadurece por doze meses em barricas de carvalho francês e americano. Uma curiosidade é o fato de parte da Sangiovese cultivada ser do tipo Sangiovese Grosso, a mesma da região do Brunello di Montalcino. Como Greve in Chianti apresenta solo rico em galestro (espécie de argila laminar) e condições de maturação facilitadas (altitudes mais baixas e excelente exposição do terreno), é possível maturar adequadamente este clone tão especial. O vinho apresenta bom corpo, boa estrutura tânica e maciez notável para esta denominação. O preço de R$ 89,00 a garrafa está abaixo do praticado para exemplares semelhantes no Brasil. A versão Riserva com aromas mais etéreos, apresenta um bom suporte de acidez e sai por pouco mais de R$ 120,00 reais.

Terroir: Ribera del Duero

15 de Agosto de 2011

Quando se pensa em grandes tintos espanhóis, duas regiões vêm à mente: Rioja, já comentada em post anterior e a poderosa Ribera del Duero. Com vinhos caros e espetaculares como o mítico Vega Sicilia e o inascessível Pingus (importadora Grand Cru – www.grandcru.com.br), Ribera del Duero pode ser sofisticação em alto nível, principalmente em seu trecho mais badalado, conhecido como a Milha de Ouro (entre as cidades de Tudela de Duero e Peñafiel), conforme mapa abaixo.

Milla de Oro: A Cõte d´Or de Ribera del Duero

Apesar do mapa acima incluir Bodegas Mauro e Abadia Retuerta, as mesmas não fazem parte da denominação Ribera del Duero. Na verdade, estão praticamente beirando a demarcação geográfica desta denominação. Contudo, nem por isso deixam de ser espetaculares, com vinhos emblemáticos e muito bem conceituados. O Mauro Vendimia Seleccionada é páreo duríssimo para qualquer ícone de Ribera. Pago Negralada da Abadia Retuerta, é outro monstro sagrado, com uma concentração impressionante. Bodegas Mauro, do grande enólogo Mariano Garcia (trinta anos no comando do Vega Sicilia) é importado pela Mistral (www.mistral.com.br), com vinhos sempre muito elegantes. Já os vinhos da Abadia Retuerta são trazidos pela importadora Peninsula, com um portfólio para todos os bolsos (www.pensinsulavinhos.com.br).

Lado Oeste: Nobreza da Denominação

Para uma melhor visualização, dê um zoom no mapa acima e perceba os limites da denominação, excluindo as duas bodegas acima citadas. As características dos vinhos de Ribera del Duero são intensidade de cor, aromas marcantes e equilíbrio gustativo, com acidez refrescante. De fato, estamos num planalto com vinhas entre 750 e 850 metros de altitude, sujeitas a uma importante amplitude térmica, que preserva a acidez das uvas e ao mesmo tempo, desenvolve aromas elegantes e bem definidos.

As uvas permitidas nesta denominação são pelo menos 75% de Tinto Fino (nome local da Tempranillo), podendo ser complementada por Cabernet Sauvignon, Merlot e Malbec, no máximo em 20% (juntas ou individualmente, se a opção for por uma dessas). Os 5% restantes ficam a cargo da Garnacha Tinta e/ou a única branca autóctone, Albillo.

A denominação estende-se ao longo de 115 quilômetros do rio Duero com distâncias latitudinais de 35 quilômetros. Quanto mais próximo do rio, o solo tende para um tipo aluvial (depósito sedimentar de outras eras geológicas). Para vinhas mais distantes do Duero, o solo apresenta uma predominância calcária, com alta pedregosidade.

Videira centenária nos arredores de Peñafiel

Num estilo mais tradicional da região, podemos citar o grande Vega-Sicilia, Pesquera e Bodegas Protos. Os dois primeiros são importados pela Mistral, enquanto o Protos é importado pela Peninsula vinhos. Já num estilo moderno, temos Bodegas Aalto (Peninsula Vinhos), Pago de Carraovejas (Peninsula vinhos) e Bodegas Alíon (Mistral). Outra bodega que vale a pena é Arzuaga Navarro, importada pela Decanter (www.decanter.com.br), com vinhos de ótima concentração, inclusive trazendo o Pago Florentino, elaborado em Castilla La Mancha (ver artigo anterior sobre Vinos de Pago).

Os encantadores Riojas Brancos

11 de Agosto de 2011

Em nome do chamado ¨gosto internacional¨,  muitas regiões clássicas da Europa estão propondo vinhos mais potentes, mais extraídos, mais macios, mais amadeirados, visando abocanhar nichos de mercado cada vez mais competitivos, principalmente nos vinhos destinados à exportação. Tanto é verdade, que em várias regiões já abordadas por Vinho Sem Segredo, falamos de forma recorrente de produtores tradicionalistas e modernistas. E muitas vezes, os chamados tradicionalistas são encarados de forma preconceituosa, no sentido de serem reacionários, acomodados e avessos a todo tipo de inovação. É bem verdade que não podemos generalizar, mas a verdadeira tradição que busca a preservação dos conceitos básicos de terroir com vinhos característiscos e de personalidade, deve ser sempre louvada e divulgada. É o caso de Rioja, onde cada vez mais, é difícil encontrarmos aqueles vinhos elegantes, admiravelmente amadeirados e profundos. Ver artigo neste blog intitulado ¨A arte da barrica¨.

Neste contexto, vamos indicar alguns vinhos e produtores que lutam por esta tradição, nos proporcionando exemplares diferenciados, que fogem dos brancos e tintos de estilo relativamente padronizados, que inundam nosso dia a dia.

Brancos de Rioja

Conforme artigo anterior, a base destes vinhos é a casta Viura. Podem ser para consumo imediato, normalmente sem passagem por barricas. São frescos, cítricos e bem agradáveis.

O destaque realmente fica para os grandes brancos com passagem por barricas. Conde de Valdemar da importadora Mistral (www.mistral.com.br) e Finca Allende da importadora Peninsula (www.peninsulavinhos.com.br ) são belos exemplares. Finca Allende tem até um toque de modernidade com barricas novas francesas, mas cumpre sua missão mesclando as uvas Viura e Malvasia. Esses vinhos podem escoltar dignamente belas postas de bacalhau. Apresentam textura cremosa e sabores intensos.

Lopes de Heredia: O Montrachet de Rioja

O vinho acima, encontrado na importadora Vinci (www.vinci.com.br), é a perfeição que um grande branco de Rioja pode atingir. Estamos falando da safra de 1987 em perfeitas condições. Este branco passou nove anos e meio em barricas de carvalho americano usadas, sofrendo um longo processo de micro-oxigenação, com duas trasfegas anuais ao longo de todo o processo. Como a madeira é inerte, a fruta fica preservada com toques extremamente precisos de oxidação. Sua graduação alcoólica de 12º aliada a uma bela acidez, resulta num equilíbrio perfeito. Viña Tondonia é sem dúvida, um patrimônio de Rioja comandada pela tradição da familia Lopes de Heredia.

Terroir: Rioja DOCa

8 de Agosto de 2011

Rioja é sinônimo dos mais emblemáticos vinhos da Espanha. Possui a mais alta classificação nas leis espanholas como Denominación de Origen Calificada (DOCa) ou em catalão DOQ (Denominació d´Origen Qualificada) . Os tintos são famosos, mas os brancos podem ser surpreendentes. As designações Crianza, Reserva e Gran Reserva são comumente mencionadas em seus rótulos.
Localizada na porção centro-nordeste da Espanha, goza de um clima de transição (entre o Atlântico e o Mediterrâneo), com solos diferenciados em três sub-regiões, conforme mapa abaixo:

Rioja Alta e Alavesa são as porções mais nobres

Conforme foto abaixo, observamos o solo mais claro, rico em calcário, na sub-região de Rioja Alavesa, protegida ao fundo pela cadeia de montanhas da Serra Cantabria. No mapa acima, vemos que Rioja Alavesa está localizada na margem norte do rio Ebro num solo argilo-calcário, muito propício ao cultivo da cepa Tempranillo, gerando vinhos elegantes e de boa acidez. Já em Rioja Alta, as variações de solo são constantes, apresentando muitos locais de solo aluvial, ora com presença maior de calcário, ora com presença marcante de argila rica em ferro, gerando Tempranillos mais austeros e taninos mais marcados. Por último, na sub-região de Rioja Baja (baixa), predomina os solos de argila ferruginosa, porém  em altitudes mais baixas e clima mais quente. Nessas condições, a cepa Garnacha consegue seu amadurecimento ideal, gerando vinhos macios, de bom teor alcoólico, embora sem grande complexidade. Mesclada devidamente aos lotes de Tempranillo, pode-se encontrar o equilíbrio ideal dos grandes Riojas. Além da Garnacha, existem outras tintas como Mazuelo (Carignan na França) e Graciano, em pequenas porcentagens. Contudo, o cultivo da Tempranillo nas três sub-regiões é marcante, respondendo por 85% ( pouco mais de 50.000 hectares) do cultivo entre as uvas tintas.

Nas uvas brancas, o predomínio da Viura (Macabeo na Catalunha) é amplo com mais de 90% (cerca de 3.700 hectares), complementado pelas uvas Malvasia e Garnacha Blanca, entre outras.

Rioja Alavesa com Sierra Cantrabia ao fundo

Os vinhos de Rioja normalmente passam em barricas, mas existe também a categoria joven ou sin crianza, que conserva os aromas primários, muitas vezes sem nenhum contato com a madeira. A maciça maioria é de tintos, respondendo por cerca de 90% da produção, ficando o restante entre brancos e rosados (dados de 2010).

Cosecha

É a designação para os vinhos chamados de joven ou sin crianza. Devem ser lançados no primeiro ou segundo ano e respondem por mais de 40% da produção, incluindo praticamente todos os brancos e rosados.

Crianza

Esta é a primeira categoria de amadurecimento com passagem por madeira e garrafa. É necessário a passagem por barrica por no mínimo 12 meses, sendo o restante em garrafa. O vinho só pode ser lançado no mercado a partir do terceiro ano. Para os brancos, o tempo mínimo é de seis meses em barricas. Quase 40% da produção total dos riojas é representada pela categoria Crianza.

Reserva

Praticamente a mesma exigência mínima da categoria crianza, só que deve ser completado inteiramente o terceiro ano. Na prática, fica um pouco mais de tempo tanto em barrica, quanto em garrafa. Os brancos só são liberados a partir de dois anos, sendo pelo menos seis meses em barrica.

Esta categoria responde por pouco mais de 15% de toda a produção da denominação Rioja.

Gran Reserva

Devem permanecer pelo menos dois anos em barricas e mais três anos em garrafa. Para os brancos, o tempo mínimo de barrica continua sendo seis meses, porém só podem ser lançados a partir do quarto ano, já devidamente amadurecidos em garrafa. Apenas cerca de 2% de toda a produção de Rioja respondem por esta categoria.

Para as categorias Crianza, Reserva e Gran Reserva são utilizadas mais de um milhão e duzentas mil barricas de 225 litros no amadurecimento de seus vinhos. É importante salientar que as características especiais de cada lote de vinho são fundamentais para dar origem a uma determinada categoria, ou seja, um Gran Reserva não é um crianza que passou mais tempo em barrica e garrafa. De fato, as exigências de tempo mínimas em cada categoria visa promover o amadurecimento adequado, de acordo com o extrato e estrutura de cada lote de vinho.

Os dados estatísticos deste artigo referem-se ao ano de 2010 e foram extraídos do site oficial www.riojawine.com . As demais informações são baseadas neste mesmo site.

Espanha: Vinos de Pago

4 de Agosto de 2011

Muitas vezes, regiões vinícolas sem grande expressão, podem apresentar pequenos vinhedos diferenciados, quer seja pelas condições específicas de microclima, quer pela excelência de um determinado produtor, ou na maioria dos casos, pelos dois motivos. Neste contexto, estão inseridos os Vinos de Pago (vinhedo que se diferencia em seu entorno), classificação de grande prestígio e restrita a estas exceções, nas atuais leis espanholas. É bom esclarecer que nem todo vinho de Pago faz parte da Denominación de Origen a que estamos nos referindo. Embora o conceito seja o mesmo, de um vinhedo diferenciado (single vineyard) para a elaboração de vinhos personalizados, muitos produtores utilizam a palavra Pago para dar prestígio a seus vinhos. Infelizmente, alguns deles abusam deste nome, para vinhos não tão “diferenciados”. Contudo, boa parte dos Vinos de Pago são realmente especiais e naturalmente, nada baratos. A exclusividade tem seu preço. Para citar um exemplo, temos o Aalto PS (Pagos Selecionados) do meu amigo Juan da importadora Peninsula, um dos melhores tintos espanhóis da atualidade, ou Pago de Santa Cruz da Viña Sastre, um grande Ribera del Duero.  www.peninsulavinhos.com.br

Por enquanto, são dez Vinos de Pago Denominación de Origen, abaixo descritos:

Região de Castilla La Mancha

É a maior região vinícola da Espanha e a maior área de vinhedos contínuos do mundo, com mais de cento e oitenta mil hectares plantados. Normalmente, são vinhos de grande produção, não associados à alta qualidade. É neste cenário, que sobressaem-se os chamados Vinos de Pago.

Campo de La Guardia

Branco à base de Chardonnay e tintos com Tempranillo, Merlot, Syrah, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot. São dois tintos de corte e um varietal de Syrah. Todos de muita intensidade, elaborados pela bodega Martúe.

Dehesa del Carrizal

Principalmente seu tinto Colección Privada, com as uvas Cabernet Sauvginon, Merlot e Syrah, passado em barricas francesas, é de grande categoria. Também um branco elaborado com Chardonnay.

Pago Florentino

Elaborado com 100% Tempranillo, localmente conhecida como Cencibel, este tinto potente passa por barricas francesas. É engarrafado sem filtração.

Pago Guijoso

Elaborados pela bodega Sanchez Muliterno, temos um branco à base de Chardonnay fermentado em barricas, um tinto com as uvas Merlot, Cabernet Sauvignon, Tempranillo e Syrah; e dois varietais (um Cabernet Sauvignon e outro Syrah)

Finca Élez

A bodega de Manuel Manzaneque cultiva parreiras antigas com uvas Chardonnay (clones da Borgonha), Cabernet Sauvignon (clones de Bordeaux) e Syrah (clones do Rhône), além de evidentemente, Tempranillo. Um branco, dois tintos de corte e dois varietais, um com Syrah e outro com Tempranillo, completam seu portfólio.

Casa del Blanco

Tintos com baixos rendimentos em três versões. Um varietal de Petit Verdot, um corte Cabernet Sauvignon/Syrah, e outro corte; Merlot, Tempranillo, Cabernet Sauvignon.

Este foi o último Pago a ser incluído na seleta Denominación de Origen Pago, contando agora com dez propriedades.

Domínio de Valdepusa

Juntamente com Finca Élez, Domínio de Valdepusa, próximo a Toledo,  foram os primeiros Pagos a serem reconhecidos como Denominación de Origen. Elabora três tintos varietais com Syrah, Petit Verdot e Cabernet Sauvignon, além do corte Eméritus, mesclando as três uvas. Importado pela Winebrands com o nome Marquês de Griñon (www.winebrands.com.br)

 

Região de Navarra

Navarra sempre foi ofuscada pelos famosos vinhos da vizinha Rioja. Entretanto, é uma região com bom potencial e que vem evoluindo de forma satisfatória. Abaixo, seus três vinhos de Pago:

Pago de Otazu

Chardonnay fermentado em barricas e tinto à base de Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon. Vinhos de grande concentração e personalidade.

Prado de Irache

Tinto à base de Tempranillo, Cabernet Sauvignon e Merlot, amadurecido em barricas francesas. Concentração e elegância.

Pago de Arínzano

Mais um tinto de personalidade da família Chivite com as uvas Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon, amadurecido em barricas francesas. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

Terroir: Priorato

1 de Agosto de 2011

Priorato ou Priorat (em catalão) compartilha com Rioja a classificação máxima nas atuais leis espanholas, como Denominación de Origen Calificada (DOCa). Situada na porção nordeste da Espanha, sub-região da Catalunha, dentro da província de Tarragona. Abaixo, mapa dos principais municípios que formam o Priorato.

11 municípios formando a famosa denominação

Esta região foi inspiração para outra denominação espanhola chamada Bierzo, apresentada em artigos anteriores enfatizando a uva local Mencía. De fato, há muitas características em comum, tais como: solos ricos em pizarras (espécie de argila laminar), orografia acidentada e revitalização de vinhedos antigos com cepas autóctones. Pizarra ou llicorella em catalão, são solos pedregosos de origem metamórfica, ou seja, modificação de argilas ricas em mica e quartzo por ação de temperatura e pressão ao longo das eras geológicas.

Voltando ao Priorato, na década de oitenta do século passado, houve uma recuperação dos vinhedos plantados com antigas cepas de Garnacha (Grenache) e Cariñena (Carignan), motivada por enólogos famosos (sobretudo, René Barbier e Álvaro Palacios) que perceberam o potencial da região. Com rendimentos muito baixos e uma bela concentração nos mostos gerados a partir de videiras antigas, foi possível elaborar vinhos musculosos e com incrível mineralidade, advinda deste solo particular. São vinhos potentes, calorosos e bem apropriados para este nosso período invernal.

Relevo montanhoso: altitude entre 300 e 700 metros

Apesar de existirem pequenas quantidades de vinhos brancos, rosés e até fortificados (generosos), estamos ressaltando os tintos, que efetivamente deram fama à região. Os tradicionais tintos do Priorato são elaborados à base de Garnacha e Cariñena de videiras antigas, em proporções variadas. Podem ser até varietais. Nos Prioratos mais modernos, há uma mescla com castas internacionais (francesas) como Cabernet Sauvginon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Syrah, Ull de Lebre (Tempranillo) e Picapoll Negro, em pequenas proporções, sem uma definição rigorosa.

Solos de pizarras (Llicorella em catalão)

A graduação alcoólica mínima para esses tintos é de 13,5º e o tempo de permanência em barricas é de seis, doze e vinte e quatro meses para as designações crianza, reserva e gran reserva, respectivamente. Para vinhos de tal concentração, o rendimento máximo é de 39 hectolitros por hectare, sendo que na prática, mostra-se bem menor (muitas vezes, abaixo de 20 hl/ha). Os vinhedos de Garnacha e Cariñena respondem por mais de 60% da área de cultivo.

Nas principais importadoras  (Mistral, Vinci, Grand Cru, Decanter) podem ser encontrados belos exemplares. Evidentemente, os vinhos de alta gama dos produtores mais famosos têm seu preço. A produção é muito pequena e os rendimentos são baixíssimos. Pratos à base de carnes vermelhas ou caças com molhos densos e condimentados costumam harmonizar muito bem.

Destaques: Clos Mogador (Mistral), Alvaro Palacios (Mistral), Mas Martinet (Grand Cru) e Roquers de Porrera (Decanter). As respectivas importadoras estão entre parênteses.


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