Jerez: Parte I


 

Logotipo do Conselho Regulador de Jerez

Toda vez que faço um artigo sobre os vinhos de Jerez, tenho absoluta certeza de que ainda é muito pouco para aliviar a injustiça, sobre um dos vinhos mais esquecidos dos consumidores. Sei que é difícil alguém gostar de Jerez pela primeira vez. É um vinho tão exótico, que pode causar a impressão de algum defeito, pela ignorância de quem o provar. Por isso, a melhor maneira de gostar de Jerez à primeira vista, é apresentá-lo acompanhando azeitonas, alice, ou comida japonesa (Afinal, o Jerez fino é o vinho que mais se aproxima do saquê). Esses ingredientes costumam aniquilar a maioria dos vinhos.

O logo acima mostra as três grafias deste grande vinho espanhol: Jerez (espanhol), Sherry (inglês) e Xérès (francês). Na verdade, a Andaluzia o produz, e a Inglaterra o divulgou mais que qualquer outra nação.

No mapa abaixo, podemos perceber o clima quente da região (extremo sul da Espanha), sobretudo no verão, já praticamente fazendo fronteira com o norte da África (Marrocos). Além do clima, a região formando um triângulo, tendo como vértices as cidades de Sanlúcar de Barrameda, Jerez de La Frontera e Puerto de Santa Maria, exibe um solo único, com marcante predomínio da albariza (solo branco esponjoso com alto teor de calcário). Este solo de excelente drenagem é importantíssimo para armazenar em camadas profundas, água da chuva no inverno, suficiente para as vinhas suportarem o cálido verão andaluz. A uva branca local Palomino completa o cenário, juntamente com a perspicácia do homem, solidificando os pilares deste terroir único.

Região quente da Andaluzia

A vinificação em Jerez ocorre também de maneira peculiar, gerando vinhos de vários tipos: finos, amontillados, olorosos e palo cortado. É fundamental salientar que o verdadeiro Jerez, de alta qualidade, é sempre seco. Os estilos doces são invenções inglesas para satisfazer certos nichos de mercado.

A figura abaixo mostra uma barrica (localmente chamada de bota jerezana) com a formação da flor (levedura típica da região que age sobre o vinho). A presença ou não da flor vai influenciar sobremaneira nas características organolépticas dos vários tipos de Jerez. Portanto, para os Finos e Manzanillas, a presença da flor é fundamental, dando origem à chamada crianza biológica, protegendo o vinho da ação oxidativa. Já para os Amontillados e Palos Cortados, temos a presença parcial da flor no processo de crianza. Finalmente, os Olorosos são criados na ausência total da flor, dando origem à chamada crianza oxidativa.

A importante proteção oxidativa da flor

A formação ou não da flor (Saccharomyces Beticus) envolve uma série de características específicas como clima, temperatura, umidade, entre outras, além do chamado imponderável. A flor se alimenta de nutrientes do vinho, principalmente o glicerol, o ácido lático, o açúcar residual e  o álcool. Para sua manutenção e vigor é importante uma boa oxigenação (preenchimento parcial das botas), e também, um rejuvenescimento com lotes de vinhos novos. É importante salientar que a flor só age depois do mosto normalmente fermentado entre 11 e 12º de álcool.

A fortificação em Jerez é sempre feita após a fermentação total do mosto. Daí a razão dos grandes Jerezes serem sempre secos. Para a formação e manutenção da flor, é importante que a fortificação não ultrapasse o teor de 15,5º de álcool. Portanto, os finos são fortificados em torno de 17º de álcool somente antes do engarrafamento, eliminando qualquer possibilidade da flor se desenvolver dentro da garrafa. Já os Amontillados e principalmente os Olorosos, são fortificados em 17º de álcool, para desenvolverem um processo exclusivamente oxidativo, sem a possibilidade da formação da flor. Portanto, a flor é muito sensível ao teor alcoólico da fortificação (encabezamiento em espanhol). Aqui vale o ditado: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

No próximo post, detalharemos outros aspectos do mais famoso fortificado espanhol, fazendo jus à notável vocação da península ibérica, na elaboração deste tipo de vinho.

 

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