Os Grandes Vinhos: Corte ou Varietal


A eterna busca pela explicação dos melhores vinhos do mundo passa pelo subjetivo conceito de terroir, envolvendo inúmeros aspectos naturais e humanos. Um desses aspectos diz respeito à composição de uvas na concepção de um grande vinho. Nesta briga estão duas grandes escolas francesas: Bordeaux e Bourgogne, ou seja, corte versus varietal.

A Borgonha para os tintos adotou somente a caprichosa Pinot Noir e paga caro por isso, levando às últimas consequências o conceito de terroir. Seus melhores vinhos é uma intrincada batalha envolvendo produtor comunal, safra e o terreno perfeito. E quando se busca a perfeição com uma só uva, a limitação do vinhedo é fundamental. Clones específicos, leveduras nativas, composição judiciosa do solo entre calcário e argila, altitude e inclinação do vinhedo bem calibradas e baixíssimos rendimentos por parreira são alguns dos segredos.

Neste contexto, é sempre óbvio falarmos do badalado Romanée-Conti, citado por muitos e provado por poucos. Dependendo da safra, seus preços são incontroláveis. Mas para quem gosta de exclusidade, o rótulo abaixo ainda é mais raro que o “the best”. O vinhedo é vizinho e o nome quase se confunde. Trata-se de um monopólio da famila Liger-Belair com área equivalente a 0,8452 hectares. Isso mesmo, menos de um hectare, metade da área do Romanée-Conti.

Um jardim na Borgonha: menos de um hectare

 

Do lado bordalês, a concepção é outra, principalmente por lidar com grandes extensões de vinhedos em relação aos padrões borgonheses. De fato, a idéia de corte de duas ou três uvas na maioria dos casos, além de aparar arestas, realçar sabores e enriquecer o conjunto, tem papel importantíssimo nas safras problemáticas, aumentando a proporção de determinadas uvas mais favorecidas ou menos prejudicadas. É assim nas famosas margens esquerda e direita, conforme série de posts passados (vide Bordeaux de I a V). Contudo, quando falamos de grandes bordeaux, principalmente em termos de preço e exclusividade, o rei Petrus é praticamente uma unanimidade. Com uma área pouco mais de dez hectares, em média dez vezes menor que os grandes châteaux do Médoc, voltamos ao tema varietal com forte conceito de terroir. Apesar de não estar expresso no rótulo, Château Petrus é tecnicamente um varietal de Merlot, com algo em torno de cinco porcento de Cabernet Franc.

Seguindo o foco extremo de exclusividade, o grande Petrus perde feio para o minúsculo Château Le Pin (vide foto abaixo), com pouco mais de dois hectares. Também com alta porcentagem de Merlot, é uma das grandes estrelas no seleto grupo de vinhos numa das menores apelações bordalesas, Pomerol.

 

Le Pin: Um dos precursores da microvinificação

 

 

Finalizando o raciocínio, quando lidamos com grife, exclusividade, artesanato, glamour, estamos falando em vinhedos minúsculos, portanto, de baixíssima produção. Nesta linha de pensamento, a idéia de uma só uva num espaço tão reduzido faz todo o sentido com o conceito extremo de terroir onde solo, clima, uva e homem são capazes de criar algo harmônico, beirando a perfeição.

Para não deixar Champagne fora do assunto, que fundamentamente é uma região de vinhos de corte, com maisons e cuvées fantásticas, quando lidamos com o extremo artesanato das melhores bolhas do mundo, nos deparamos com preciosidades como Salon e Krug Clos de Mesnil, ambas de vinhedos minúsculos e cem porcento Chardonnay. Portanto, dentro de uma certa ótica, os varietais parecem ser destinados a atingirem a perfeição na medida do possível.

 

 

 

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