Archive for Fevereiro, 2010

Bordeaux: Parte V

24 de Fevereiro de 2010

 

Sauternes/Barsac e apelações satélites

Os vinhos doces de Sauternes não deixam espaço para outros exemplares de regiões vizinhas, mesmo a notória região contígua de Barsac. Encabeçados pelo grande Yquem, châteaux como Rieussec, Guiraud, Suduiraut e Fargues reforçam este imperialismo.

Os vinhos são baseados na supremacia das uvas Sémillon, que podem chegar a 80% ou mais na composição do corte, complementadas pela Sauvignon Blanc, além de eventualmente, uma pitada de Muscadelle. A magia destes vinhos  deve-se à atuação precisa do fungo chamado Botrytis Cinerea, o qual submetido a períodos de alternância entre neblina matinal  e ensolação, provoca nos grãos de uva (particularmente a Sémillon, que é muito suscetível a seu ataque)  perdas de água significativas, concentrando níveis de açúcar importantes. Para completar o processo, a luta entre as uvas e o fungo gera teores de acidez incríveis, proporcinando aromas e sabores diferenciados, além da característica untuosidade, advinda da produção extra de glicerina. São vinhos macios, complexos e untuosos, sem perder um equilíbrio invejável.

Um dos segredos destes vinhos são as várias passagens no vinhedo em busca de colheitas seletivas, já que a botrytização não ocorre de maneira uniforme. Daí a explicação de sucesso do Yquem e outros grandes châteaux que só trabalham com uvas plenamente botrytizadas. Já os Sauternes baratos são meras caricaturas da apelação, misturando uvas majoritariamente não atacadas com uma parcela reduzida atacada às vezes parcialmente pelo famoso fungo.

Vale a pena aqui fazer justiça à comuna de Barsac que erroneamente parece transmitir uma certa submissão à apelação Sauternes. Na verdade, essas apelações são altamente e igualmente reputadas, diferenciando-se em estilo de vinho. Sauternes que geologicamente apresenta um solo pedregoso de natureza calcária com presença de argila, gera vinhos mais potentes e untuosos. Já Barsac, com solos mais arenosos e avermelhados (presença de ferro) e forte presença de calcário (tanto em rocha, como em pedras denominadas calhaus), gera vinhos mais sutis e elegantes, sem toda a untuosidade do seu rival.

Nesta comuna de Barsac, principalmente o Château Climens tem papel destacado, seguido de perto pelo ótimo Château Coutet. Outro menção que se faz necessária é o Château Doisy-Daëne, elaborado pelo craque Denis Dubourdieu, um dos maiores especialistas em vinhos brancos de Bordeaux.

Os châteaux até então mencionados de Sauternes e Barsac já eram famosos no século XVIII. Portanto, foram incluídos também na classificação de 1855, juntamente com os tintos do Médoc. A lista completa com 27 châteaux de Sauternes e Barsac está à disposição no site www.bordeaux.com.

Existe um Sauternes não classificado que deve ser mencionado entre os grandes. Trata-se do Château Gilette da comuna de Preignac. É um vinho de alto nível que passa mais de 15 anos na adega do próprio château em tanques de cimento, sem nenhum contato com madeira. Chega pronto ao mercado com todos os atributos que um Sauternes evoluído deve possuir.

Outro injustamente não classificado e já mencionado acima é o Château de Fargues (curiosamente da mesma família Lur-Salices, proprietária do Yquem).

Apelações Satélites

Voltando ao nosso mapa, percebemos uma série de comunas que rodeiam o centro nevrálgico da região (Sauternes e Barsac). Sobretudo as comunas de Cérons, Loupiac e Sainte-Croix -du-Mont costumam elaborar vinhos interessantes com duas grandes vantagens. Evidentemente o preço é uma delas. A outra é a prontidão destes vinhos e o caráter menos untuoso que às vezes, por uma questão de gosto ou adequação enogastronômica, é extremamente benvido. Contudo, fatores como complexidade e persistência aromática devem ser devidamente restringidas à relativa simplicidade das  respectivas apelações em questão.

Considerções finais

Com este quinto e último post sobre Bordeaux procuramos fornecer os elementos de foco para o que há realmente de interessante em seus vinhos, fazendo jus à toda magia e glamour que envolve a região. O conhecimento mais aprofundado e preferências pessoais acirram ainda mais a discussão pelos melhores châteaux.

Infelizmente um mar de vinhos na região aproveita a onda de fama e prestígio daqueles que realmente merecem para promover vinhos insípidos e decepcionar consumidores despreparados. Entretanto, um grande Bordeaux a gente nunca esquece.

Tendo um bom champagne de ínicio, não haverá motivos para mudanças de curso durante um jantar,  entre brancos, tintos e doces bordaleses. Principalmente,  quando não fazemos concessões ao conceito de terroir.

Bordeaux: Parte IV

19 de Fevereiro de 2010

 

 

 

 Margem Direita

  

Mais uma expressão clássica: vinhos da margem direita. Pelo mapa acima, percebemos que a referência é a margem direita do rio Dordogne, sendo as apelações de Pomerol e Saint-Emilion seus grandes expoentes. As apelações satélites que rodeiam essas famosas regiões também fazem parte da margem direita. A rigor, até as apelações Côtes de Blaye e Côtes de Bourg que não aparecem no mapa  por estarem na margem direita do Gironde, devem também ser incluídas.

Tudo muda aqui em relação ao Médoc em termos de solo e composição de uvas. A argila predomina nesta área, notadamente em Pomerol, o que favorece o bom desempenho da Merlot. Em algumas áreas onde destaca-se também o cascalho, a Cabernet Franc entra em ação. Portanto, são essas duas uvas,  com a Cabernet Franc complementando a Merlot, que  norteiam o chamado corte bordalês, deixando muito pouco espaço para a Cabernet Sauvignon.

Pomerol

Berço espiritual da Merlot com o mítico Château Petrus reinando absoluto. Não há uma classificação oficial, mas todos sabem que o grande Petrus é hors concours, seguido por uma dezena de excelentes opções.

Se dinheiro não for problema, Petrus e Le Pin são as estrelas da região. Como viraram grifes, os preços vão às alturas, embora sejam vinhos diferenciados. Baseado na Merlot em solos argilosos, os rendimentos por parreira são baixíssimos, além de um belo estágio em barricas novas de carvalho. Os demais châteaux que são para mortais seguem descritos abaixo e podem surpreender os mais exigentes paladares.

Château Lafleur e Château Trotanoy são opções quase unânimes para as estrelas acima, com muito requinte e personalidade. La Conseillante, L´Evangile e Petit- Village são também pedidas encantadoras. Vieux-Château-Certan, do mesmo proprietário do Le Pin, apesar de suntuoso, segue um estilo mais medoquino, mais austero, com menor porporção de Merlot e presença de Cabernet Sauvignon.

Em resumo, os vinhos de Pomerol são adoráveis, macios e com frutas exuberantes, porém muito caros. A região é minúscula com menos de 800 hectares, ou seja, um quadrado de menos de 3 km de lado. Resultado: baixa produção para uma demanda enorme.

Saint-Emilon

Comparada a Pomerol, esta apelação é bem maior (cerca de 5400 hectares) com solos extremamente complexos e diferenciados. Para não complicar muito, podemos dizer que os solos mais arenosos e os solos dos vales, próximos ao Dordogne dão origem a vinhos pouco expressivos. Os grandes vinhos  estão em torno da cidade de St Emilion nas chamadas Côtes (encostas), bem como, nos solos de cascalho (graves) nas proximidades de Pomerol.

A classificação oficial dos vinhos de Saint-Emilion passa por um momento conturbado. Iniciada em 1955 foi prevista uma revisão de 10 em 10 anos, sendo a úlitma em 2006, extremamente polêmica, diga-se de passagem. Esta classificação apresenta três níveis de hierarquia:

  • Premiers Grands Crus Classés A: Châtau Ausone e Château Cheval Blanc
  • Premiers Grands Crus Classés B: com treze châteaux
  • Grands Crus Classés: com cinquenta e três  châteaux

Neste último nível, a expressão Grands Crus Classés não tem nem de longe o peso que tem para os Grands Crus da Borgonha. São vinhos relativamente simples com raríssimas exceções. 

Falar dos châteaux classe A é chover no molhado. Seu único defeito é o preço. Château Ausone é um vinhedo quase dentro da cidade de St Emilon num solo extremamente calcário. É um vinho difícil, principalmente quando jovem. Revela-se aos poucos e exige paciência e experiência de quem o possui.

Já Cheval Blanc é totalmente oposto. De solo pedregoso, próximo a Pomerol, origina vinhos elegantes e extremamente receptivos, mesmo quando jovens. A Cabernet Franc tem participação marcante, sendo muitas vezes majoritária. É um vinho de sonhos com a safra de 1947 transformada no maior mito entre os grandes de Bordeaux. Château Figeac, da mesma região, é muito interessante, mas evidentemente, sem o mesmo brilho e glamour.

Os châteaux do grupo B são as grandes pedidas sem gastar uma fortuna. Château Canon, Pavie, Angelus, Magdelaine  e La Gafferière são  grandes experiências para sentir o terroir de Saint Emilion.

Satélites de St Emilion e Pomerol

Lalande de Pomerol, Montagne-St-Emilion, St-Georges-St-Emilion, Lussac-St-Emilion, Puisseguin-St-Emilion, Fronsac e Canon-Fronsac São apelações que circundam os grandes astros (Pomerol e St Emilion). São vinhos não tão complexos, mas podem ser interessantes, a medida em que o produtor possa exprimir com fidelidade seu respectivo terroir. Infelizmente, a oferta destes vinhos no Brasil é escassa. Vieux Château Saint-André, Château Les Hauts Conseillants e Château Fontenil são boas opções.

Vins de Garage

Tradição e notoriedade têm seus efeitos colaterais em Bordeaux. A Rigidez e inflexibilidade das classificações não dão margem a novos châteaux. Foi desta revolta que surgiram os garagistas nas regiões de Pomerol e St Emilion. São vinhedos minúsculos com uvas vinificadas em espaço reduzido (num cômodo como uma garagem). Os vinhos são concentrados, bastante extraídos e com passagem obrigatória por barricas novas, às vezes 200% em carvalho. É quando você passa um vinho no primeiro ano em barrica nova e no segundo ano você troca novamente a barrica por outra nova. Em resumo, são vinhos parkerizados, extremamente concentrados e acarvalhados. Muitos consideram o Le Pin como precursor desta categoria, mas pessoalmente considero um exagero. Os châteaux Valandraud e Le Dôme resumem melhor este conceito. São vinhos caros, pontuados e de prestígio. Enfim, conseguiram seu objetivo, mas altamente polêmicos quanto ao terroir.

Em resumo, os vinhos de St Emilion não apresentam um estilo bem definido. Ora são mais frutados e abertos tendendo a Pomerol, ora são mais austeros e fechados tendendo ao Médoc, sem falar nos garagistas que costumam anabolizar seus vinhos, tornando-os verdadeiros blockbusters.

Bordeaux: Parte III

13 de Fevereiro de 2010

Região de Graves

Completando a chamada margem esquerda abordada no último post, detalharemos a seguir a região de Graves, a qual começa a sul das imediações da cidade de Bordeaux, percorrendo toda a margem esquerda do Garonne até a cidade de Langon. É uma vasta região com brancos e tintos interessantes.  Dentro desta área estão duas apelações muito famosas: Pessac-Léognan a norte e Sauternes a sul.

Podemos dizer que Pessac-Léognan é o filé mignon deste pedaço, englobando os melhores brancos e tintos, inclusive o majestoso Château Haut-Brion. Esta apelação relativamente nova data de 1987. Até então, todos os vinhos eram engarrafados sob a apelação Graves, esclarecendo possíveis confusões com châteaux mais antigos.

Aqui nos deparamos com outra importante e antiga  classificação de Bordeaux denominada classificação de Graves, iniciada em 1953 e completada em 1959. Permanece imutável a exemplo da classificação de 1855. A lista completa com 16 châteaux entre tintos e brancos está no site www.bordeaux.com.  Só para ratificar, todos os châteaux classificados estão dentro da apelação Pessac-Léognan, confirmando seu terroir diferenciado.

Os tintos são moldados dentro do corte bordalês com leve predominância da Cabernet Sauvignon sobre a Merlot fugindo um pouco do estilo mais austero do Médoc. Um dos motivos é a composição do solo onde a proporção de areia é maior do que a argila, mantendo a presença de cascalho que dá nome à região (Graves). Portanto, os vinhos não são tão encorpados como no Médoc e costumam amadurecer mais cedo com uma mineralidade notável (um toque terroso).

Châteaux de destaque

Château Haut-Brion é a exceção  que ostenta as duas importantes classificações de Bordeaux, 1855 e a de Graves. A explicação por ser o único vinho fora do Médoc incluso em 1855 vem do fato de seu enorme prestígio na época e também ser o mais antigo dos grandes châteaux de Bordeaux. De fato, é soberbo. Muitas vezes acessível na juventude, mas com muita profundidade e sutileza, podendo envelhecer por décadas em grandes safras. Localiza-se em Pessac, praticamente dentro da cidade de Bordeaux.

Château La Mission Haut-Brion, vizinho e rival do grande Haut-Brion, na verdade são parceiros desde 1983, pertencendo ao mesmo proprietário (família Dillon). Numa sintonia fina, podemos dizer com relação a seu parceiro que há uma certa exuberância e potência em detrimento à sutileza. Contudo, é igualmente magnífico. Isso é o que podemos chamar de concorrência em alto nível.

Se você não quiser correr riscos para os grandes tintos de Pessac-Léognan além dos dois rivais acima, a opção mais segura é o Château Pape-Clément. Não tão caro como os dois acima, mas igualmente consistente. Elegante e sutil, suas notas terrosas vão se misturando a tabaco na evolução em garrafa, sugerindo alta gastronomia baseada em cogumelos e trufas.

Para os outros châteaux classificados sempre corre-se um certo risco em termos de tintos. Além dos classificados, Pessac-Léognan pode oferecer boas ofertas como o Chãteau de France e mesmo a vasta região de Graves tem bons vinhos para o dia a dia como o Château Cantegril. É uma questão de pesquisar o produtor.

Encerrando os tintos, passemos aos brancos com alguns tesouros esquecidos. Dentre os classificados, novamente a mesma parceria de tintos transfere-se para os brancos, ou seja,  Château Haut-Brion branco e Château Laville-Haut-Brion (o grande branco do La Mission). Qualquer um dos dois são espetaculares e envelhecem muito bem.

Se você não quiser gastar uma fortuna, há ótimas opções dentre os classificados. Os châteaux mencionados a seguir são mais uma questão de gosto, sem nenhuma ordem hierárquica: Domaine de Chevalier (denso e complexo), Château Carbonnieux (muito delicado e elegante), Château de Fieuzal, Château Olivier e Château Smith-Haut-Lafitte.

Fora dos classificados, tanto Pessac-Léognan como Graves, oferecem boas opções mais frugais. Château Reynon, Château Haut-Bergey e Clos Floridène são pedidas seguras.

Por úlitmo, cabe esclarecer que os brancos secos de Bordeaux são baseados principalmente na Sémillon e Sauvignon Blanc. Enquanto a Sémillon aporta estrutura, corpo e profundidade, a Sauvignon Blanc fornece acidez, frescor e leveza. Pode haver uma pitada neste blend de uma terceira uva chamada Muscadelle, que fornece notas florais e certa graciosidade ao conjunto.

Com isso, encerramos os grandes brancos secos de Bordeaux. A região de Sauternes e suas imediações ficarão para o post dos grandes doces de Bordeaux.

Bordeaux: Parte II

4 de Fevereiro de 2010

 

Margem Esquerda

Para começarmos a detalhar Bordeaux, vamos direto ao ponto: Vinhos da Margem Esquerda. Mas margem esquerda do que? margem esquerda do rio Gironde, sempre no sentido de olhar o mapa de Bordeaux, nunca esquecendo dos três grandes rios mostrados no artigo passado (Garonne, Dordogne e Gironde). A rigor, podemos incluir também a margem esquerda do Garonne, mas de fato é o Médoc, o grande astro desta constelação.

Médoc é a contração de uma expressão latina ¨in medio acquae¨, ou seja, entre as águas (Gironde e Atlântico). Essas águas até o século XVII, proporcionaram terras extremamente lodosas na região, impróprias para a viticultura. Duas ações muito importantes foram decisivas para mudar este cenário: plantação de pinheiros em todo lado atlântico do Médoc e um trabalho especializado de drenagem em todo lado direito por engenheiros holandeses (mestres nesta arte). Podemos dizer literalmente que o terroir medoquino foi forjado pelo homem.

As consequências foram extremamente positivas. Os pinheiros que hoje formam a floresta denominada Landes, com mais de um milhão de hectares, limitada a sul pelos Pirineus, barram os ventos úmidos e salinos do Atlântico. Já a drenagem próxima ao Gironde, fez aflorar um solo de cascalho, conhecido também como graves, oriundo de outras eras geológicas relacionadas a cataclismas tanto nos Pirineus, como no Maciço Central, além evidentemente, do próprio leito do Gironde. Devido a vários fatores como topografia e heterogeneidade do terreno, a drenagem em toda a região é bastante variável, dando margem a um velho ditado: o solo do Médoc muda a cada passo. Portanto, o fator drenagem é preponderante aos demais quando se fala de terroir em Bordeaux, notadamente na chamada margem esquerda, principalmente, porque a altitude é muito baixa, tendo como pico, 43 metros acima do nível do mar.

Disso tudo, vem a explicação para as famosas comunas do Médoc, como mostra o mapa acima. É interessante notar que Saint-Estèphe, Pauillac e Saint-Julien estão coladas e Margaux um pouco mais abaixo, isolada. Aqui percebemos claramente a ação da drenagem. O cascalho aflora com grande vigor nas três primeiras comunas e depois desaparece, voltando a florescer na comuna de Margaux.

Em consequência da boa drenagem, solo destacadamente pedregoso, e clima ameno permitindo um período de amadurecimento longo das uvas, a Cabernet Sauvignon sente-se em casa, mostrando todo seu potencial. Essas condições de terroir mostram vinhos extremamente estruturados, tânicos, longevos, sem jamais perder uma elegância singular.

A Cabernet Sauvignon no Médoc é complementada pela Merlot e Cabernet Franc, alem da Petit Verdot e Malbec eventualmente em proporções diminutas, formando o chamado corte bordalês. A Merlot principalmente, procura aparar as arestas da Cabernet Sauvignon, deixando o vinho mais macio e menos austero, sobretudo quando jovem. Em seu longo envelhecimento na garrafa, o famoso corte aportará complexidade aromática e textura diferenciada.

A proporção dos cortes, a vinificação cuidadosa e o amadurecimento criterioso  em barricas de carvalho são mais alguns segredos dos grandes bordeaux.

As quatro principais comunas guardam diferenças importantes entre si, além do estilo imprimido pelo  produtor tanto no campo, como na cantina.

Saint-Estèphe

Esta é a comuna de menor prestígio embora sem nenhum demérito. Costuma-se dizer que seus vinhos não possuem a finesse das demais comunas. Entretanto, há um certo exagero. Aqui notamos um solo um pouco frio, menos pedregoso e mais argiloso. Esses fatores provocam vinhos com mais acidez e certa austeridade, principalmente quando jovens, necessitando de algum tempo em garrafa. São vinhos para quem tem paciência em esperar seus ricos aromas terciários.

Do exposto acima, o vinho que mais emblematiza esta comuna é o Château Montrose, além de seu segundo vinho ser uma boa pedida (La Dame de Montrose). Seu grande rival é o Château Cos d´Estournel. Um estilo mais macio e moderno, mas extremamente elegante.

Pauillac

Para muitos, a perfeição em Médoc. Daqui saem três dos cinco primeiros classificados em 1855: Château Lafite, Mouton e Latour. Elegância enigmática, exuberância e imponência são respectivamente, expressões vagas para tentar definí-los.

Nesta comuna, a proporção de cascalho é alta, favorecendo toda a potencialidade da Cabernet Sauvignon. Os aromas de cassis na juventude e de tabaco na maturidade são notáveis. São vinhos sedutores, mesmo quando jovens, a exemplo do grande Château Pichon Lalande. Para completar, envelhecem com grande propriedade.

Outros châteaux de destaque: Lynch-Bages, Pichon Baron e Pontet-Canet.

Saint-Julien

Apesar de não possuir nenhum Premier Grand Cru Classé, seus vinhos são de tirar o fôlego, além de uma consistência impressionante.  O terroir é muito próximo a Pauillac com uma camada igualmente expressiva de cascalho. Mas como a vida é feita de detalhes, falta o imponderável que sobra em sua vizinhança. Dois châteaux exprimem bem a riqueza, a força e a personalidade desta comuna: o maior dos Léovilles, Château Léoville Las Cases e o irretocável Château Ducru-Beaucaillou.

Château Léoville Barton e Gruaud Larose  merecem destaque também.

Margaux

Elegância e feminilidade são marcas registradas desta comuna. Um pouco mais de cálcario no solo e um cascalho mais fino e abundante tentam explicar estas características. Aromas florais (violetas) principalmente quando jovem e um toque de sous bois quando evoluído, ditam suas principais características. O mítico Château Margaux é atualmente um dos melhores  entre os seletos Premiers Grands Crus Classés. Paul Pontalier, seu grande mentor, faz um trabalho preciso, discreto e contínuo desde 1983.

O segundo nome, quase uma unanimidade, é o exemplar Château Palmer, seguido de perto pelo Rauzan-Ségla. Château Durfort-Vivens pode ser uma boa experiência também.

Considerações finais

Todos os chãteaux mencionados até agora nas quatro famosas comunas do Médoc fazem parte da imutável classificação de 1855 que dividiu em cinco grupos os sessenta melhores vinhos da época, ou seja, premiers, deuxièmes, troisièmes, quatrièmes e cinquièmes crus, no linguajar francês. Esta classificação dos crus classés  está disponível no site oficial de Bordeaux (www.bordeaux.com).

Olhando mais uma vez o mapa acima, as quatro comunas fazem parte do chamado haut-médoc (toda área rosa claro), que inclui também as comunas não tão famosas, Listrac e Moulis.

Muitos châteaux não classificados dentro do haut-médoc tem boa reputação e muita regularidade, sendo portanto, discriminados por não fazerem parte da pomposa classificação aristocrática. Desta injustiça, nasceu a interessante classificação da burguesia, os chamados crus bourgeois. Podem ser excelentes pedidas tanto pelo preço, como pela evolução mais rápida em garrafa. Neste contexto, a menção do château Sociando-Mallet é obrigatória. Vinho de alta distinção com todas as credenciais do estilo médoc. Os châteaux Chasse-Spleen, Gloria e Phélan-Ségur geralmente são pedidas certas.

Em resumo, podemos dizer que os vinhos da margem esquerda fundamentam-se na Cabernet Sauvignon, monstrando-se austeros e estruturados. Portanto, aptos ao envelhecimento.

Fora da classificação de 1855 e da relação de Crus Bourgeois, ainda que anulada temporariamente desde sua última revisão em 2003, as chances de sucesso nos demais châteaux, que não são poucos, tornam-se diminutas. Nestas situações, conhecer a fundo o produtor é fundamental para a perfeita expressão de seu respectivo terroir.

Próxima parada: Graves com seus grandes brancos e tintos.


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