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Nederburg Noble Late Harvest: Doçura sul-africana

25 de Abril de 2014

Para aqueles que querem testar ou repetir a agradável experiência entre vinhos botrytisados e queijos azuis, a foto abaixo aguça o paladar. A similaridade de texturas, o contraste entre o doce e o sal, além do embate gordura versus acidez, são pontos notáveis nesta harmonização.

Gorgonzola Dolce e Noble Late Harvest

Às vésperas da Copa do Mundo não vou fazer apologia do Nederburg Twenty Ten, vinho oficial do último torneio na Africa do Sul. Entretanto, tem um vinho desta vinícola extremamente interessante. Trata-se do Nederburg Winemaster´s Noble Late Harvest, importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br). O termo Noble sugere que as uvas foram atacadas pelo nobre fungo (Botrytis Cinerea). 

Como introdução, vamos falar do famoso Nederburg Edelkeur Noble Late Harvest, criado pelo competente enólogo alemão, Günter Brözel, cuja primeira safra em 1969, fez enorme sucesso em 1972, destacando-se em degustação histórica na cidade de Budapeste, frente a grandes nomes de Sauternes (França), Tokaji (Hungria) e Trockenbeerenauslese (Alemanha). Juntamente com o Vin de Constance, Edelkeur é o vinho doce mais prestigiado deste país.

Este vinho ainda é lançado em safras especiais, baseado na casta Chenin Blanc (uva emblemática do Vale do Loire). Com uvas atacadas pela Botrytis Cinerea (fungo reponsável pelos melhores vinhos doces), Edelkeur é para muitos uma unanimidade em vinhos de sobremesa sul-africanos, ostentando em várias edições do famoso guia de bolso Hugh Johnson, as cobiçadas quatro estrelas. Pode ser uma bela cópia dos melhores botrytizados do Loire (Quarts de Chaume ou Bonnezeaux).

Como todo ícone, a baixa produção torna sua oferta no mercado extremamente limitada, não tendo exemplares atualmente no Brasil. O preço elevado, embora não proibitivo é outro fator a considerar. Contudo, ele foi inspiração para uma série de sucessores em seu estilo pela Nederburg, como por exemplo, a meia garrafa acima ilustrada.

Analisando a safra de 2011, uma das mais recentes do Noble Late Harvest, percebemos alguns dados técnicos bastante diferencidos. Primeiramente, o corte é inusitado: 87% Chenin Blanc, 13% Muscat de Frontignan (variedade de moscatel do sul da França). Tanto a Chenin Blanc, como a Moscatel, têm forte tradição na viticultura sul-africana. As vinhas foram plantadas entre 1984 e 1993. 

Ótima alternativa frente aos caros franceses

O tripé básico de equilíbrio de um vinho doce é baseado no teor alcoólico, nível de acidez e índice de açúcar residual (evidentemente natural). Pois bem, neste exemplar temos discretos 12,10% de álcool, consideráveis 188 g/l (gramas por litro) de açúcar residual e inacreditáveis 9,30 g/l de acidez fixa, que via de regra é o calcanhar de Aquiles da maioria dos vinhos doces. Para termos exata noção deste valor, a acidez mencionada é comparável às mesmas dos vinhos bases de Champagne, as quais são um dos trunfos desta refinada bebida.

Para finalizar, o vinho não tem passagem por madeira, sendo pura expressão da fruta. Aromas delicados e elegantes de frutas secas, notadamente o damasco, mel, flores e notas minerais. Se for percebido uma nota cítrica, provavelmente deve-se à participação da Moscatel. Seu equilíbrio é notável. Álcool discreto, doçura agradável, graças ao excepcional suporte de acidez, transmitindo um final fresco e nem de longe enjoativo.

Com um preço ao redor de R$ 80,00 cada garrafa,  é só comemorar. Este Nederburg bate um bolão!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes FM 90,9 às terças e quintas-feiras nos programas Manhã Bandeirantes e no Jornal em Três Tempos. 

Edelkeur: A nobre doçura da África do Sul

12 de Julho de 2012

Degustações históricas promoveram vinhos mundo afora, revelando rótulos como o australiano Grange Hermitage, o neozelandês Cloudy Bay, o supertoscano Sassicaia, e tantos outros. Entretanto, um vinho pouco lembrado é o sul-africano Edelkeur, lançado em 1969 pelo famoso enólogo alemão Günter Brözer da vinícola Nederburg. Em 1972, este vinho venceu um concurso em Budapeste concorrendo com grandes vinhos doces, incluindo Sauternes e Tokaji. Günter, um apaixonado pelos grandes Trockenbeerenauslese alemães, desenvolveu com competência vinhedos propícios ao ataque da Botrytis Cinerea com a casta Chenin Blanc na região de Paarl.

Rótulo original que deu origem à saga
Ao longo do tempo, Edelkeur abriu caminho para outros vinhos doces com outros castas, além da Chenin Blanc, na própria vinícola Nederburg, a qual batizou suas seleções como Winemaster´s Reserve Special Late Harvest e Winemaster´s Reserve Noble Late Harvest. A primeira envolvendo uvas como Chenin Blanc, Riesling, Muscat de Frontignan e Gewürztraminer. Já a segunda, com grande proporção de Chenin Blanc, complementada por Muscat de Frontignan, uvas estas botrytisadas.
Nova roupagem para o Edelkeur
Em 2001, o bastão é passado para o competente enólogo romeno Razvan Macici, após 33 anos sob a batuta de Günter Brözel. O rótulo mais atual acrescenta a expressão Private Bin, conforme foto abaixo. São vinhos de baixíssima produção, nem mencionados no próprio site da vinícola, www.nederburg.com.
 
Última versão na rotulagem
Tecnicamente, é um vinho muito bem equilibrado no tripé básico dos grandes vinhos de sobremesa, ou seja, álcool, acidez e açúcar. O grau alcoólico, geralmente baixo, gira em torno de 10 graus. A acidez total, frequentemente atinge 10 gramas por litro, e o açúcar residual às vezes passa de 200 gramas por litro. Além de ser elaborado totalmente com Chenin Blanc, aproxima-se de belos vinhos do Loire, principalmente das apelações Bonnezeaux e Quarts de Chaume. Um vinho delicado e de grande personalidade. Ótimo com tortas levemente cremosas com frutas frescas (pêssegos, por exemplo).
A safra 2005, uma das melhores dos últimos tempos, apresenta 9,75% de álcool, incríveis 12,49 gramas por litro de acidez total, e 240,50 gramas por litro de açúcar residual absolutamente balanceados, num final muito equilibrado e expansivo.
Os vinhos de Nederburg são trazidos pela importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br).

Harmonização: Mil-folhas

5 de Abril de 2012

Quem nunca cedeu à tentação de abocanhar um mil-folhas? Pode ser desde um singelo doce de padaria até sofisticadas sobremesas dos melhores restaurantes franceses. O fato é que as camadas de massa folhada são intercaladas com creme de confeiteiro geralmente aromatizado com favas de baunilha. As frutas vermelhas podem estar intercaladas, ou serem dispostas para compor o prato, conforme segunda foto abaixo. A cobertura pode ser açúcar de confeiteiro peneirado ou um crème fondant (preparação à base de açúcar e água).

Proporção maior de massa folhada

As fotos acima e abaixo mostram proporções de creme e massa folhada bastante diversas. Se as camadas de massa folhada forem proporcionalmente mais relevantes do que as camadas de creme, temos mais crocância e menos untuosidade. Neste caso, espumantes demi-sec (na verdade são doces. vide artigo intitulado Champagnes e Espumantes: grau de doçura) mostram textura mais adequada, com a mousse  harmonizando bem o lado crocante. É só uma questão de calibrar o açúcar do prato com a doçura do vinho. Se houver presença de frutas frescas, Asti Spumante pode ser uma bela opção.

Proporção maior de crème pâtissière

Se por outro lado, a proporção de creme for significativa conforme foto acima, a untuosidade prevalece, pedindo vinhos doces de maior textura. Aqui precisamos de vinhos com mais densidade, mas sem exageros. Brancos do Loire como Quarts de Chaume ou Bonnezeaux baseado na casta Chenin Blanc podem ser ideais. Vendange Tardive da Alsácia baseado na Riesling ou Pinot Gris são alternativas eficientes. Muscat de Rivesaltes é uma opção original do sul da França. Sauternes ou outros Botrytizados muito untuosos são exagerados para o prato. A presença de frutas vermelhas frescas no prato pede mais frescor nos vinhos, sem a necessidade de tanta doçura. Mais uma vez, a calibragem entre o açúcar do prato e a doçura do vinho deve ser observada.

Bela opção para encerrar o almoço de Páscoa neste domingo. Bom feriado a todos!

Vale do Loire: Parte II

16 de Janeiro de 2012

Continuando nossa viagem pelo Loire, após passar por Pays Nantais no extremo oeste da região, caminhamos um pouco adentro no continente, chegando ao berço espiritual da temperamental casta Chenin Blanc, a sub-região de Anjou-Saumur.

Anjou-Saumur: Dê um zoom no mapa acima

Nesta sub-região ainda temos boa influência do Atlântico, trazendo ventos e umidade. Nos solos argilosos em Anjou predominam o xisto e a ardósia, favorecendo o cultivo da Chenin Blanc, também conhecida como Pineau de la Loire. Nas apelações como Coteaux du Layon, Bonnezeaux e Quarts de Chaume, os vinhos costumam ser intensamente doces, mas muito bem equilibrados por uma incrível acidez. São vinhos delicados, longevos e nos melhores anos, elaborados com uvas atacadas pela Botrytis Cinerea. Coteaux du Layon é uma apelação mais extensa e seus vinhos não costumam ser tão doces, mas a acidez é marcante. A alternância de umidade e calor nestas apelações favorecem sobremaneira a boa atuação do abençoado fungo. O rótulo abaixo da Domaine Baumard é importado pela Mistral (www.mistral.com.br)

Baumard: Referência nesta apelação

O estilo seco e mineral da Chenin Blanc fica por conta da apelação Savennières com vinhos bastante longevos. Duas apelações próprias destacam-se como verdadeiros Grands Crus da região: Coulée de Serrant e Roche-aux-Moines. Principalmente a primeira, propriedade do pai da biodinâmica, Nicolas Joly, é a perfeição do estilo seco em Chenin Blanc. Extremamente longevo, este é um dos poucos brancos que deve ser obrigatoriamente decantado. O estupendo Coulée de Serrant é importado pela Casa do Porto (www.casadoportovinhos.com.br).

Quanto aos tintos, apelações como Anjou, Anjou Villages, Rosé d´Anjou e Cabernet d´Anjou para os rosés, não apresentam grandes atrativos, com vinhos leves e na maioria, sem grandes predicados. As castas Gamay (a mesma do Beaujolais),  Cabernet Franc e um pouco de Cabernet Sauvignon são cultivadas na região. Contudo, os melhores tintos estão em Saumur, assunto do nosso próximo artigo.

Chenin Blanc: A jóia do Loire

1 de Setembro de 2010

Região clássica de grandes brancos

As extremidades do mapa acima são as exceções para o cultivo da grande uva branca do Loire, Chenin Blanc. No extremo oeste, quem reina é a Muscadet com o vinho homônimo, tradicional parceiro de ostras frescas. Já no extremo leste, temos o predomínio da Sauvignon Blanc, emblematizada nas apelações Sancerre e Pouilly-Fumé.

Nas regiões centrais do mapa, Anjou, Saumur e principalmente Touraine, a Pineau de la Loire (nome local da Chenin Blanc) encontra seu terroir ideal. Solos xistosos e calcários, clima continental com marcante influência atlântica e vinhedos bem posicionados quanto à insolação, são alguns dos segredos de seu sucesso.

A versatilidade desta uva quanto a tipos e estilos de vinho é notável, desde belos espumantes, vinhos secos e vinhos doces, passando por vários níveis de açúcar residual. As melhores bolhas e grandes vinhos doces ficam com a apelação Vouvray. O produtor Didier Champalou representado no Brasil pelo Club Taste Vin tem belos vinhos da apelação (www.tastevin.com.br). Outras apelações para espumantes são: Anjou Fines Bulles (Chenin Blanc – 80% mínimo), Montlouis-sur-Loire (apelação rival de Vouvray), e parcialmente com Chenin; Crémant de Loire, Saumur Brut e Touraine. Aqui faz-se necessário um parênteses para o produtor biodinâmico Huet, com três vinhedos da apelação Vouvray excepcionais: Le Haut Lieu, Le Mont e Clos du Bourg. São vinhos de uma delicadeza ímpar e quase imortais. Importados pela Mistral.

Para o estilo seco, mineral, incisivo, e de grande longevidade, a apelação Savennières é a pedida certa. Agora, se você não abre mão da perfeição, Coulée de Serrant e Roche-aux-Moines são obras primas do craque Nicolas Joly (www.casadoportovinhos.com.br). Esses brancos merecem decantação de pelo menos uma hora. Essas apelações são pequenas parcelas dentro da apelação Savennières, que adquiriram identidade própria.

Os grandes vinhos doces de Chenin, muitos deles botrytizados, estão sob várias apelações além de Vouvray. As mais importantes e representadas no Brasil ficam por conta do Domaine Baurmard da importadora Mistral (www.mistral.com.br) e Château de Fesles da importadora World Wine (www.worldwine.com.br). São elas: Quarts de Chaume, Coteaux du Layon e Bonnezeaux. Normalmente, são mais encorpados que os vinhos doces da Alemanha, mas menos untuosos que os grandes Sauternes. Combinam muito bem com tortas cremosas à base de  frutas frescas.

Bonnezeaux: delicadeza e longevidade

Este é o universo Chenin, com vinhos gastronômicos e surpreendentes. Infelizmente, brancos esquecidos e muitas vezes desconhecidos dos consumidores. Coulée de Serrant é um dos maiores brancos da França, provando através de seu mentor Nicolas Joly, que a biodinâmica é a filosofia mais coerente na elaboração de vinhos artesanais, desde que se tenha talento, amor e dedicação para tanto.


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